AMOR EM PEDAÇOS

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AVISO: O bloco de notas do celular é um lugar maravilhoso para se estar quando você não quer mais estar. Ataques de ansiedade, raiva, refluxo, amor e remorso. Tem como documentar tudo. Escrever virou algo automático depois de alguns anos e me assustei quando abri meu bloco de notas e encontrei vários fragmentos de “coisas” que andei anotando no ano passado. Os trechos não são retratos de uma realidade enfadonha e sim de uma criatividade operacional.

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Faz algum tempo que parei de romantizar ou ver charme em gente covarde. Talvez porque eu tenha me tornado um covarde, mas a verdade mesmo é que gente assim faz gente como eu “amar em círculos” e infelizmente eu nasci pessoa e não um hamster.

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Absurdo ter tanto de você em todos os meus cantos e mais nada de mim em nenhum canto seu. Nunca mais. Nostálgico abrir minha gaveta de trecos e ter carta sua (quem ainda escreve cartas hoje em dia?) e saber que nunca mais vai ter de novo mais nada seu. Sinto saudades dos nossos momentos, saudades de como você ficou bonitinho vestido de insegurança e encheu a cara pra me conhecer, porque achou que pra me conquistar era preciso mais do que você já tinha feito. Logo você, que já tinha feito tudo. Agora sobrevivo das migalhas dos nossos primeiros momentos, recolhendo seus pedaços em cada canto meu só pra sentir de novo o garoto que não tiro do coração e que ainda morro de saudade. 

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Você me entendia de um jeito estranho que me trazia conforto. Você gostava de mim porque eu era meio bizarro e eu morria de rir quando tentava me convencer que eu tinha cara de quem estava prestes a espirrar quando bancava um personagem sexy. Era o máximo te ver esparramado no sofá domingo reclamando da vida enquanto eu te namorava em silêncio. Eu adorei quando a gente fingiu maturidade e saiu pra almoçar e seu Tinder bombando e meu Tinder bombando e a gente explodindo. Os dias que seguiram depois do nosso primeiro encontro. O dia que você acordou assustado no meio da noite e segurou minha mão e pediu pra eu não ir embora, mesmo sabendo que eu só ia buscar um copo d’água. O dia que eu tirei várias fotos suas no seu celular e a gente riu de como a vida era um pouco ridícula. O dia que você errou meu nome e eu fingi que esqueci o seu. O dia que você me fez café e me deu remédio porque estava ardendo em febre. O dia que você entregou as chaves do apartamento e eu nunca mais te vi.

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Os meus dedos roçam minha nuca a procura de um refúgio, porque pela vigésima vez sou invadido por essa vontade descontrolada de te enviar mais uma mensagem. Você não respondeu nenhuma das dez anteriores, porque faria diferente agora na décima primeira? Mas minha vontade controlada vence mais uma vez e desligo o celular. Você esteve online há quinze minutos, e eu te mandei essas mensagens há dois dias atrás. Eu não posso passar uma vida esperando alguém me responder, mesmo que ele se disfarce de homem dos meus sonhos. O homem dos meus sonhos quer foder comigo e não com a minha saúde mental. O homem dos meus sonhos sempre arranjaria tempo e desculpas para me ver ou enviar uma mensagem entre um compromisso e outro no seu dia tão corrido. O homem dos meus sonhos entende a importância de se estar presente, diferente de você que só habita meu passado. Me sinto enganado, porque você não fez esforço algum e de cara me ganhou, me sinto inteiro uma negação. Grande bosta suas festas no interior, onde rolava as maiores surubas e você só ficou sabendo no dia seguinte (tá bom!). Grande merda esse seu sorriso largo e espaçado que não sabe sorrir se a câmara do iPhone não estiver apontada pro rosto. Caguei se você tem 30 caras implorando por um segundo encontro, porque nem com 30 você conseguiu preencher a porra do vazio que você sente e que vem disfarçar comigo. Quer saber de uma coisa? O cara com o qual eu tô sonhando e achei ter visto em você não passa de um playba que se esconde atrás de uma máscara de incertezas, e eu mereço alguém que saiba fazer melhor que uns beijos. De vez e quando eu quero alguém que saiba discar o número do meu telefone. 

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Eu nunca sei quando vai acontecer, mas eu sei que uma hora vai. Você não pode ser o príncipe da minha vida (olha eu me repetindo em um novo engano!), porque eu já tenho 23 anos e quero um homem de verdade. Fantasiar com meninos que cheiram a talco enquanto limpo o meu sempre me trouxe dor de cabeça. Quando você para no sinal e aperta minha coxa me olhando com cara de quem faria o melhor sexo do mundo até o semáforo abrir e foda-se os carros atrás eu enlouqueço e sinto a maior vontade de deixar rolar a pedra desse amor morro abaixo, enquanto declaro em maior estilo: “M E  F O D E!!!“.

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Felicidade mesmo é o que tem com os outros. Porque o que não sinto agora é vontade de rir. E meus olhos deslizam por entre as pessoas bebendo, e sorrindo, e vivendo, e respirando e daqui a pouco pulando e pedindo mais uma pro DJ. Felicidade é coisa dos outros. Felicidade não vende nos lugares que costumo ir. Não dá pra colocar numa caixa com formol pra preservar e ter sempre. Assim como o sexo, a felicidade vai e vem. Ela vem do nada, e vai embora do nada. Felicidade mesmo é poder sentir uma felicidade desmesurada pelas pequenas coisas da vida. Mas eu já estou cansado de ouvir dos outros como se é feliz. Como se faz para achar alguém bacana e casar e ter filhos e não terminar solteiro. Como se faz pra largar tudo e viajar para Florianópolis e lá casar e ter filhos e nunca mais sentir tristeza na vida. É tudo tão simples, é tudo tão natural, é tudo tão orgânico que parece que nada tem mesmo sentido quando “não ser” foi a única coisa que sobrou. A felicidade é um episódio de série tarde da noite que eu dormi antes de ver acontecer. A felicidade por encomenda. Não existe né? Também acho que não. A felicidade num mundo onde alegria mesmo é pedir mais uma música pro DJ. Sentei, bocejei e olhei para um casal recém formado, eles dançam e se encostam e sorriem enquanto se beijam. E eu? Eu observo enquanto bocejo olhando para o fim, olhando para o fundo dos olhos dele agora sem cor, o lugar sem volta, o único número que me atende e que tá dando ocupado, o lado. Vontade estranha de descer a escada e ser abduzido, vontade louca de sair e tirar a roupa e sumir.  Vontade de mandar ele ir pro inferno e arrumar minhas malas e ir atrás dele. Mania essa de querer não habitar mais. Queria correr no DJ e pedir mais uma, ou mais um. Que coisa!

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1 comentário

  1. Um anônimo que, por um tempo, você roubou o coração · 27 dias atrás

    Lembro da primeira vez que me falou do seu blog… Eu li e fiquei encantado, e estava mais ainda encantado com você, e pensando em como todas as suas inseguranças eram minhas, em como eu sabia que poderia ser pra você o que você esperava, e em como você seria pra mim um príncipe, pois nas suas palavras eu via como os meus medos e anseios estavam em você, e em como me trataria diferente de todos os outros que me machucaram, e de como eu também te trataria com todo o cuidado que merecia… Eu tinha convicção de que, apesar do pouco tempo que te conhecia, você era incrível e alguém que valia a pena… Já me imaginava passando a mão pelos seus cabelos, encarando seu sorriso bonito, ouvindo você falar da laço ou jogando um joguinho bobo no celular, enquanto ouvia The Strokes… Imaginava tudo isso, até o dia que parou de me responder, e minhas mensagens encontraram um vazio do outro lado… Pensei o que eu teria feito com você, se eu te pedi demais, qual o motivo de ter se afastado… Meus defeitos eram maiores que minhas qualidades, imagino… Pensei mil coisas, e ainda não encontrei a resposta… De vez em quando minha mente ainda cruza com algumas lembranças suas e me questiono o que teria acontecido, mas como nunca vou ter resposta, logo adormeço… Estranha a vida, né?! Você escreveu tanto sobre como te magoaram… Bem vindo ao outro lado, você me magoou.

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